O cinema (finalmente) retrata o 11 de Setembro
Carregado de drama e emoção, o lançamento cinematográfico do mês, “Vôo 93”, é um relato fiel dos exatos 91 minutos em que os passageiros e a tripulação estiveram nas mãos dos terroristas muçulmanosPor Bruna Rodrigues
O mundo não é mais o mesmo depois do dia 11 de setembro de 2001, data que entrou para a história da humanidade. Pela primeira vez, os símbolos da hegemonia norte-americana foram atacados por terroristas da Al Qaeda, movimento fundamentalista islâmico liderado até então por Osama Bin Laden. No total, foram mais de três mil mortos em quatro atentados diferentes; as duas torres do World Trade Center, o Pentágono e a Casa Branca eram os alvos a serem atingidos. Com exceção do último, os outros três planos obtiveram sucesso e fizeram que, tanto a vida dos americanos, como do resto do mundo, mudasse completamente.
Hollywood precisou de cinco anos para encarar a tragédia e produzir filmes que tratassem, diretamente, dos ataques terroristas. A estudante Bia Scheuer que viaja anualmente para Nova York lembra que, “para os Estado Unidos, o 11 de Setembro foi uma morte e, depois de toda morte, há um período de luto”. Somente neste ano, quando se completam cinco anos do ocorrido, o cinema dá sua resposta à crise política e mostra como os atentados surpreenderam todo o país. E é exatamente isso que o diretor inglês Paul Greengrass mostra em seu filme “Vôo 93”.
Lançado este semestre, o documentário conta a história do único avião que não atingiu o local desejado, a Casa Branca, e caiu na Pensilvânia. O filme reconstitui, nos mínimos detalhes, o seqüestro do vôo 93 da United Airlines que acabou em um acidente trágico e sem sobreviventes.
Além de contar com as falas autênticas dos passageiros e com os depoimentos dos familiares das vítimas, Greengrass não pretende criar heróis ou apontar culpados. O que o diretor faz questão de ressaltar é a luta pela sobrevivência daqueles 40 passageiros que mal entendiam o que estava ocorrendo, afinal a rivalidade entre islâmicos e norte-americanos era ainda pouco conhecida.
A produção deixa de ser apenas uma homenagem aos mortos e se torna uma reportagem dramática com altas doses de realismo, justamente o que o estudante de cinema André Vellozo observa: “é fácil perceber que todos ali estavam interessados em fazer algo que não fosse um mero dramalhão baseado em uma catástrofe”.
O filme acompanha, paralelamente ao embarque dos passageiros do vôo, a trajetória dos quatro terroristas que, por pouco, não perderam o controle da situação e foram dominados pela própria tripulação. Apesar de terem cometido uma atrocidade, é interessante notar como os muçulmanos estavam aflitos e nervosos, até porque sabiam do imenso risco que corriam. “Fizeram um ótimo trabalho ao humanizar os terroristas, principalmente quando um deles liga para esposa e se despede dizendo que a ama”, acrescenta Vellozo que considera o filme uma obra de arte.
A técnica de filmagem é inusitada. A câmera foi posicionada estrategicamente em apenas dois lugares, na torre de comando do aeroporto e no próprio avião seqüestrado, com objetivo de passar a inquietação vivida por aquelas pessoas. Enquanto alguns acreditam que este recurso aproxima o público da situação e faz com que ele sofra junto com os protagonistas, a estudante Bia discorda: “Há muitas pessoas falando ao mesmo tempo e a câmera treme e perde o foco constantemente. Fiquei muitas vezes confusa”.
Por mais que a crítica tenha elogiado o resultado final e reconhecido que o cinema americano esteja se aprimorando nos últimos tempos, as opiniões ainda são variadas. “É uma enorme falta de respeito ganhar dinheiro às custas da morte de cinco mil pessoas”, lamenta o brasileiro Willian Lima que mora atualmente em Lisboa e diz que, assim como no Brasil, o filme se tornou um sucesso de bilheteria em vários países da Europa.
Insatisfeita com o resultado final, Bia classifica “Vôo 93” como uma produção tipicamente “hollywoodiana” e tendenciosa. “Não passa de um filme de ação como qualquer outro, não chega a tocar e confortar os expectadores na medida que é preciso”, argumenta a estudante e ressalta que, apesar de cinco anos decorridos da tragédia, muitas dúvidas e fatos inexplicáveis ainda rondam os ataques daquele dia.
Todos sabiam que este assunto geraria enorme polêmica na sociedade e foi o que efetivamente aconteceu. O que não se pode negar é o interesse da população em reviver, nem que seja por meio do cinema, a confusão, o desencontro de informações e a impotência das pessoas perante uma das ações terroristas mais ousadas de todos os tempos.
Somente no fim de semana de estréia a renda de “Vôo 93” ultrapassou US$ 1,5 milhão e toda a verba foi destinada ao memorial construído na Pensilvânia, o que não deixa de ser uma homenagem aos mortos. Vale lembrar que, há dois meses, o documentário foi exibido na televisão norte-americana. Transmitido pelo canal A&E, o programa chegou a ser considerado o mais visto na história da emissora, com cerca de 6 milhões de telespectadores,
Realismo ou ficção? Para tirar esta dúvida, nada melhor do que ir ao cinema e sentir na pele como foi a terrível experiência daqueles que foram vítimas da rivalidade política, econômica e religiosa que permanece até os dias de hoje entre esses dois extremos. É uma boa oportunidade para vivenciar uma situação inédita, que jamais se repetirá, o que não deixa de ser a grande virtude do cinema.